Análise psicológica: Joker

~ ALERTA DE SPOILER ~ 

Arthur Fleck: Um homem quebrado. Palhaço que sofre. Apanha. É humilhado.  Mora com a mãe a sustenta.

Logo, mais um fato: Arthur sofre de um transtorno mental: não consegue transmitir as emoções como as sente. Sofre. Mas ri. Aprendeu desde muito novo (com sua mãe) a transformar sentimentos negativos em (aparentemente) positivos. É chamado por ela de HAPPY. Existe a NEGAÇÃO da agressividade. A agressividade, aqui, é uma destrutividade. O ambiente (mãe) não suporta o instinto, que deve ser externalizado de outra forma.  

Arthur aprendeu desde muito novo a lidar com o que machuca. Frente a isso, criou defesas: Rir da desgraça é muito mais agradável do que deixa-la te atingir. É preciso ser forte. Arthur aprendeu.

A mãe: vive isolada no próprio mundo. Contato? Apenas com seu filho. Cria fantasias. É diagnosticada com psicose delirante.

Embora sustente sua mãe e sua casa, Arthur se comporta como uma criança. Fantasia. Gesticula. Fala de um modo infantil. Difícil saber no meio do filme o que é real ou não. Na cena do delírio onde participa de seu programa favorito, é nítido seu comportamento infantil envergonhado.

Arthur faz suas primeiras vítimas. Cá pra nós, as chamamos assim. Mas Arthur se deleita. Ele ENFIM, goza.

Em um primeiro momento, epifania. Pânico.  Depois, dança. dança. dança. Sente o poder e a liberdade.

O encontro com a terapeuta: “Acho que você nunca me ouve” – diz Arthur. “Durante toda a minha vida, eu duvidei se eu existia. Agora, eu existo. As pessoas estão percebendo que eu existo”. Arthur se reconhece. Ele encontra sua identidade. Se transforma em Joker quando se torna um ícone. Um ícone da massa insatisfeita. Um ícone de uma sociedade que se vê vingada pelos assassinatos de Joker. O humilhado Arthur passa a ser o assassino do metrô. 

Tantos problemas…

E qual é o problema divulgado pelas mídias? Ah… É… Os grandes ratos que vivem no esgoto…

A máscara do palhaço passa a ser o símbolo de um movimento contra os ricos. Passa a ser usada contra um político que fecha os olhos para os verdadeiros problemas. Fecha os olhos para a pobreza. A violência. A fome. Um governo que fecha os olhos para a doença mental: O espaço onde Arthur se encontrava com sua terapeuta e pegava seus medicamentos foi fechado por falta de verba.  Com a falta dos remédios, começam os delírios. No seu delírio, Arthur é bem sucedido nas relações amorosas: Namora sua linda vizinha. É o começo de uma nova identidade, embora aqui, exista apenas na fantasia.

E já que falamos em politico: Thomas Wayne pode ser pai de Arthur. O que depois descobrimos ser um delírio é o começo da grande transformação. Arthur é um homem que não sabe de onde vem. E um homem que não sabe de onde vem, não sabe quem é e nem para onde vai. 

Como se já não fosse o suficiente, a verdade vem a tona. Arthur é adotado. Filho de uma psicótica. Sofreu GRAVE abuso físico quando criança sob vigilância de sua querida mãe. Espancado. Amarrado. Subnutrido. Traumatizado. “Nunca o ouvi chorar. Sempre foi tão feliz”- diz a mãe. Repito: Arthur aprendeu. Aprendeu que deve demonstrar felicidade e normalidade no meio social, independente de suas dores e frustrações. Quando a agressividade na criança não é exposta de uma maneira saudável, não existe integração da agressividade no ser. Quando não há expressão, há esconderijo: A agressividade é escondida e reprimida.

Arthur cresceu em um ambiente hostil. Em ambientes hostis, cria-se uma defesa para proteção do Self do sujeito. É criado um falso self: Uma formação que existe para proteção. No caso de Arthur, é isso que acontece, hipótese corroborada por sua fala de dúvida de existência. Existe uma sensação de não ser ele mesmo. Ele não é o Arthur. Ele é o Joker.

Essa falha no ambiente de criação de Arthur é EXTREMAMENTE PREJUDICIAL e propicia o surgimento de uma psicopatia. 

Arthur se encontra com o seu eu. Vivia encapuzado. Mascarado. Tentando se enquadrar em um mundo que nunca teve encaixe pra ele. Mas agora não devemos chama-lo de Arthur. Aqui, nasce o Joker. Existe uma cisão entre o perdedor e o ganhador. Arthur perde. Joker ganha.

Joker tem seu video de comédia viralizado: divulgado pelo seu programa de TV favorito. É humilhado em “rede nacional”.  Vai então ao programa a convite da produção. Lá, dá um show de humanidade antes de matar o apresentador. 

O primeiro riso sincero acontece com o caos: Joker causou um verdadeiro furdunço na cidade a partir do seu discurso na TV. A população “ignorada pelo sistema” o defende. O salva. O venera. Ele se orgulha. ELE EXISTE.

E aí temos uma das cenas finais: Joker dança no meio do caos. A dança é o seu modo de expressão. Ele se sente poderoso. Feliz. Ainda nessa cena, nota-se que o filme em cartaz no cinema é: As duas faces do Zorro. Escolha nada aleatória por parte da produção do filme: 

Quando o novo governador espanhol começa a se tornar um tirano, a população da Califórnia se vê oprimida e desamparada. Mas, em meio a esta situação desesperadora, o nobre Don Diego Vega (Hamilton) recebe aqueles que foram os bens mais preciosos de seu pai: a capa, a máscara e a espada de Zorro. Don Diego passa a confrontar o tirano governador e a defender a população.  -As duas faces do Zorro-

Diferente dos outros heróis que mantém duas identidades (a do verdadeiro eu e a do herói), Arthur deixa de existir. Enquanto no Batman temos duas identidades (a do Bruce e a do Batman), o Joker é apenas Joker. Não existe mais Arthur. 

Um questionamento que o filme levanta, é:

É fácil ter um transtorno no dia de hoje né? A gente tem remédio. A gente tem terapia. A gente tem hospital.

NÃO.

É fácil pra quem tem dinheiro.

A loucura é elitizada. E aqui, até mesmo na escolha de música existe uma crítica: Frank Sinatra compõe a trilha sonora de todo o filme. A gente tem aquela imagem do Hannibal cozinhando carne humana ao som de música clássica.  ENTENDA: A loucura não é bonita.

Uma vida inteira de frustração, humilhação e traumas infantis levam sim a loucura. No quadrinho “Piada mortal”, Joker afirma que “É preciso apenas um dia ruim para enlouquecer”. O filme dá muitos mais elementos. Mas SIM: Não é necessário uma vida inteira ruim para que se perca o controle. A cisão de um individuo pode acontecer dentro de 24 horas. Só depende de um acontecimento, uma gota que não possa ser contida.

A loucura existe. Joker é LOUCO. Existe gente louca por aí. Alguns menos, outros mais. A gente não pode fingir que ela não existe.

Joker assusta, mas é uma representatividade. É ficção. Ele assusta por que pode ser real, afinal, ele não tem nenhum super poder. Não podemos pegar ele como um ícone, como no filme. A loucura deve ser tratada. A sociedade e o governo precisam sim se atentar pra isso. Não é só quem tem dinheiro que deve ter acesso.

Algumas notícias já dizem que tem protesto no mundo afora de uma massa insatisfeita usando a máscara do Joker como forma de manifesto. Ele defende uma ideologia. Até nos pegamos torcendo por ele no filme. MAS REPITO: Joker não é parâmetro de sanidade e sim o contrário. Temos maneiras e recursos saudáveis para defendermos nossas ideias e opiniões. Defender a insanidade é quase tão insano quanto ser portador.

4 Replies to “Análise psicológica: Joker”

  1. Sensacional! Análise muuuito boa 👏🏻👏🏻👏🏻 Achei esclarecedor

    Muitos pontos que nos fazem refletir apesar do ponto de vista do filme nos fazer “torcer” para o Joker,

    Acredito que o filme tem uma crítica muito necessária pra os dias atuais e você soube explicar com clareza! Parabéns!

    1. Oi Hiko! Feliz que gostou!
      Abraço.

  2. 👏👏👏👏👏 muito esclarecedor!

    1. Que bom que gostou, Laila!
      Abraço

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